Sábado, Junho 14, 2008

Despedida. Mudança.

Depois de meses sem postar, sinto que preciso formalizar minha despedida, por ora, do mundo dos blogs. Não vou desaparecer da Internet, e o filme*log vai continuar por aqui. Quem sabe o Lúcio, que também tem postado no blog, não se anime de continuar com ele. E quem sabe eu mesmo não volte a postar esporadicamente.

Mas estou de mudança. Vou fincar definitivamente meus pés no Joio, meu lar na Internet, e convido os leitores do filme*log a se cadastrarem no site e a participarem das discussões por lá. Se eu fosse registrar aqui a história do Joio, que não é um blog, mas um fórum, eu precisaria viajar no tempo até 1997, quando eu comecei a participar ativamente do então uol.cult.cinema, newsgroup que depois se transformou em uol.artes.cinema, e finalmente se extinguiu quando o UOL decidiu terminar com o suporte a NNTP e investir em uma plataforma web para fóruns.


O pessoal que cuida do Joio, e muitos de seus participantes, são indivíduos com históricos bastante diversificados e opiniões bastante divergentes, que têm em comum apenas o fato de possuírem um amor patológico por cinema, adorarem conversar, e não levarem o universo muito a sério. O tom das postagens é sempre algo jocoso, mesmo quando a intenção e o assunto são sóbrios. Como já temos 2 anos de funcionamento (apesar dos mais de 10 anos de história), e o fórum tem crescido tão harmoniosamente, decidi pendurar as chuteiras e acabar com minha carreira de blogueiro. Blogar por quê, afinal, se o nosso fórum é tão legal?

Eu gostei muito de manter esse blog, mas minha comunidade, por assim dizer, minha família, minha nacionalidade, minha história etc., sempre foram relacionadas aos fóruns. A cultura dos fóruns é muito diferente da cultura dos blogs. Apesar de a maioria dos blogs ser aberta a comentários, quase sempre o formato é muito mais voltado para o monólogo do que para o diálogo. E apesar de alguns freqüentadores habituais de blogs conseguirem definir e sustentar uma persona online marcante, os blogs nunca conseguiram, e nunca conseguirão (por questões de formato), dar origem a faunas tão ricas, diversificadas e fascinantes como as dos fóruns.

Eu conseguiria escrever páginas e páginas detalhando as personalidades pseudo-virtuais de uma boa dezena de indivíduos, alguns dos quais conheci ao vivo, e outros com os quais nunca tive qualquer contato por fora dos fóruns, apesar de um período de convivência já superior a 10 anos. Muitas das relações que eu mantenho com esses animais - no bom sentido - são muito mais intensas, profundas e significativas do que com pessoas de carne-e-osso que conheço da minha infância. Quem diz que a Internet separa, aliena e distancia, ou é pobre de espírito ou é irremediavelmente ignorante. Que Deus, Odin, Tupã, Olorum e Zeus tenham piedade dessas pessoas.

Convido meus leitores a visitarem o Joio, antes lendo o post do Marcus sobre o fórum. Talvez passemos por algumas mudanças estéticas e funcionais nos próximos meses, mas o núcleo do fórum está lá. Falamos não apenas sobre cinema, mas sobre música, TV e "coisas em geral". É como a Revista Proibida do Odair José, "uma revista que falava tanta coisa, sobre coisas de mulheres". Só que mais ampla.

Comecem a surfar pela página "Contribuições Recentes", ao invés de ler o fórum pela árvore ou pela página inicial. O "Contribuições Recentes" é o lugar onde as coisas acontecem.

Sábado, Fevereiro 23, 2008

Sweeney Todd





IMPRESSIONANTE. O filme mais insano do ano até agora, e deve figurar em listas de ao menos Top 25 mais dementes da história. Parece que alguém bateu no liquidificador Dexter, Soylent Green, A Liga Extraordinária e a Noviça Rebelde, e serviu num copão de milkshake com cereja em cima.

Barbeiro demente revoltado quer MATAAAAAAAAAAR todo mundo com suas magníficas navalhas de prata. Conveniente e coincidentemente, ele tem uma vizinha também demente no andar de baixo que forma uma parceria comercial macabra com o barbeiro, sumindo com os defuntos dos clientes assassinados transformando-os em tortinhas de carne e vendendo para os incautos frequentadores de seu restaurante, que acham tudo uma diliça. Incrivelmente, isso é um musical, e as letras de musiquinhas como a do barbeiro cantando seu fetichismo com as lâminas, ou a cozinheira declamando as virtudes do "ingrediente secreto" das tortas canibais, são inacreditáveis. O visual preto e PODRE dos cortiços da Londres do Século XIX, mais os personagens de palidez cadavérica e olheiras típicos do Tim Burton, mais o Johnny Depp e a Helena Bonham Carter nos papéis principais, dão os toques finais para o filme ser perfeito em sua total bizarrice.

Terminei de assistir agora e ainda estou meio chocado, de modo que esta é uma resenha curta que acaba abruptamente aqui mesmo. Ah, mas não sem antes um de meus típicos gran finales de galeria de fotas. Hihihihihihi...






Cantando na Chuva - com navalhas.




O número musical fantástico com a performance de percursão da cozinheira matando baratas com um rolo de massa.




O duelo de barbeamento com o Barbeiro de Sevilla.




Garantidamente a barba mais rente de Londres.





Num aspecto assim History Channel do filme, aprendemos olhando para os personagens que as pessoas tinham problemas de anemia, carência de vitamina D e olheiras, na Londres vitoriana.

Domingo, Dezembro 30, 2007

A Bússola de Ouro





Dado que sou um fã babão do livro, temo que minha crítica vai tender fortemente a ser uma crítica do quão boa ficou a adaptação, mas vou escrever assim mesmo, há! Vamos lá: o filme consegue ser bom *e* ruim, ao mesmo tempo, na adaptação do livro, ainda que isso soe completamente desprovido de sentido!

Explico: o desenvolvimento do filme me pareceu uma adaptação excelente, com uma narrativa correspondendo MUITO ao que lembro do livro. Existem é claro simplificações, mas eram esperadas, sem elas não daria para despejar o monte de informações no livro em formato de filme. (Mesmo assim, a Isabela Boscov na Veja achou o filme extremamente confuso para não-iniciados. Bom, se isso serve de consolo, de certa forma o livro *é* confuso, despejando zilhões de informações por página. E o universo imaginado pelo Pullman, verdade seja dita, é *mesmo* um samba do crioulo doido, com inúmeros de elementos de fantasia e ficção científica costurados juntos não porque servem à narrativa, mas porque são legais - e isso acaba sendo o charme do livro.) Quanto ao ponto "polêmico", de que suavizaram a crítica à Igreja e a Deus para pasteurizarem o filme para as criancinhas, francamente achei a pasteurização muito leve. Os vilões do tenebroso Magistério (que é uma instituição existente no livro) usam roupas eclesiásticas e seus prédios são cheios de iconografia entre católica e ortodoxa (lembrando que a Igreja na realidade paralela do livro não sofreu cismas), de modo que qualquer pessoa com meio cérebro entende que o Magistério é uma instituição religiosa. O único momento em que a "pasteurização" pesou mesmo é quando notamos que retiraram uma cena FANTÁSTICA do livro, onde um trecho da versão alucinada da Bíblia do mundo paralelo é citado e vemos que é COMPLETAMENTE DIFERENTE da nossa versão "canônica". Em lugar dessa passagem aparece uma cena comparativamente inócua explicando basicamente a mesma coisa. Mas consegui conviver com isso, não doeu.

Quanto ao visual do filme, devo dizer que é maravilhindo de morrer! A tecnologia maluca do mundo paralelo é o ponto alto - nao sei se "steampunk" seria um nome adequado porque não existe a referência a situações históricas do século XIX, e muito menos (duh) máquinas a vapor. Chamaria o que se vê no filme de "futurismo vitoriano". É estranhíssimo, a tecnologia deles parece ao mesmo tempo mais antiga e mais avançada que a nossa. Por exemplo, os carros lembram carruagens, mas os motores elétricos (ou "anbáricos", usando a terminologia do livro) que os movem parecem ser incrivelmente avançados, e com um design totalmente não-intuitivo para nós (ou ao menos para mim). Os prédios e os móveis também tem visuais com um quê de era vitoriana, mas dá para ver em vários casos que usam materiais e técnicas de construção/manufatura muito avançados. Enfim, conseguiram uma amálgama de elementos retrôs e futuristas que tornam o filme um fascínio visual sem fim para nerds. (Se você leitor é um nerd cuidado para não ter um orgasmo quando aparecem os robozinhos insetóides feitos com técnicas de relojoaria.) Parabéns, mega-über-kudos para a equipe de design/direção de arte do filme!!!

(E para dizer que eu não fiquei só babando ovo no visual, os bichinhos virtuais são toscos, nitidamente CGIzados, do nível das Crônicas de Nárnia. Mas, francamente, quem vai prestar atenção em ursos polares sensientes CGIzados quando aparecem robôs-insetos de relojoaria? :) Porém, ainda no quesito bichinhos virtuais, devo dizer que o que os daemons não têm de virtuose de CGI eles têm de "interpretação" - os animadores capturaram muito bem a personalidade de cada personagem e a "imprimiram" nos daemons, levando o espectador a acreditar que os bichinhos realmente são materializações das almas das pessoas.)

Ah, mas como eu disse existe a parte ruim da adaptação. O que realmente doeu tem a ver com uma questão de timing. O caso é que cortaram o final APOTEÓTICO do livro! Em vez de terminarem o filme no final do livro, pararam no "falso clímax" que antecede o final. Tipo, imagino que deve ficar para o começo do próximo filme, e sei que é comum fazerem uns "translados de finais" em adaptações de trilogias (no Senhor dos Anéis foi assim, se estou lembrando direito) mas, porém... o final do livro é tão maravilhoso, e tem uma reviravolta tão terrível, que a mudança soa como um sacrilégio para mim! Não entendo exatamente porque fizeram isso - se foi porque o filme já estava muito grande ou o quê - mas infelizmente isso me fez sair do cinema com uma sensação de "blé".

Pensando bem, talvez seja uma estratégia de marketing. Agora vou ficar desesperadamente esperando o segundo filme, "A Faca Sutil", só para ver o final que *eles* não deram ao primeiro filme. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAHRRRRRRGH!!

Domingo, Dezembro 09, 2007

30 Dias de Noite





Filme de vampiros AWESOME, muito bacana mesmo! De fato, estou deslumbrado e digo até que é uma pequena revolução nos filmes de vampiros.

A historinha é simples: uma cidadezinha no fim do mundo, além do Círculo Polar Ártico, fica com 30 dias de noite no inverno. Os moradores estão relativamente acostumados com isso (tanto quanto se pode acostumar com um ciclo de dia e noite alienígena assim :), mas o inverno mostrado no filme é diferente porque a cidadezinha é invadida por... VAMPIROS!!! Que, é claro, convenientemente cortam o pouquinho de comunicação que a vilazinha tem com o mundo exterior. Assim, aos aterrorizados habitantes humanos só resta passar um mês em medo abjeto, vivendo como ratos em uma casa cheia de gatos.

E quando digo medo abjeto quero dizer... medo abjeto mesmo. Os vampiros de "30 days of night" não são rapazes metrossexuais bonitos como os da Anne Rice, nem estrangeiros charmosos como o Drácula de Bram Stoker, nem moças sensuais irresistíveis como a do Insatiable (outro filme de vampiro que vi recentemente e que talvez eu comente). Não. Na verdade, são MONSTROS HORROROSOS, quase que totalmente desprovidos de humanidade tanto na forma quanto nos sentimentos. E essa é a grande inovação do filme, os vampiros realmente dão mêda, do tipo que se eu visse uma coisa daquelas na minha frente provavelmente iria cagar nas calças de medo, pronto, falei.




O HORROR!!! Tirem isso daqui! AHHHHHHHH!


De fato, a única coisa que ainda os vampiros do filme ainda parecem ter de humanos é o uso da linguagem e raciocínio, e assim mesmo de vez em quando. No mais, são criaturas horríiiiiveis em quase todo aspecto imaginável. Fisicamente, o pouco que têm ainda em comum com humanos é terem a forma humanóide básica de dois braços, duas pernas, cabeça, tronco, e "adereços" como roupas e cabelos. Mas nem parecem muito "pessoas que viraram vampiros", parecem isso sim que foram peixes abissais hórridos que de alguma maneira obscura adquiriram forma humanóide. Pele cadavericamente pálida e com alguma coisa sugerindo humidade, olhos pretos de tubarão e fileiras de dentes semitransparentes em forma de agulha, em um rosto distorcido de forma sutil mas aterradora. Ai que mêda! Emocionalmente, eles têm uma completa indiferença com relação aos humanos e, uns com os outros, parecem demonstrar apenas algum tipo de instinto gregário para caça em grupo (inclusive com a presença de um "macho alfa"). Usam palavras de vez em quando para se comunicar, mas frequentemente o fazem também por meio de guinchos pavorosos impossíveis de serem produzidos por cordas vocais humanas. Com a agilidade e superforça "normais" dos vampiros, a sensação de medo que eles passam é parecida com a dos zumbis da série Extermínio, só que um pouco pior, pois sabemos que há uma mente insensível e incansável dentro de cada um dos "zumbis". Enfim, são coisas tão grotescas que, ao contrário de incontáveis outros filmes de vampiro, em nenhum momento você fica seduzido pela "pós-humanidade" dos vampiros - de que adianta ser imortal e com superpoderes se você virou *aquilo*?




Além de serem bichos horríveis desprovidos de emoções, os vampiros do filme também não têm as mais elementares noções de como se portar à mesa - incluindo uso de guardanapos.


Fora isso, o visual deprimente de inverno ártico, com uma fotografia muito bonita, termina de compor o clima. Recomendo muito!

Sábado, Novembro 24, 2007

Viagem a Darjeeling

Eu fui preparado para implicar com o filme, porque Life Aquatic me deixou meio irritado no final. Esse estilo do Wes Anderson, um blasé que fica berrando "uau, como eu sou cool e inteligente!", cheio de excentricidades gratuitas, câmera lenta, musiquinha "uau, como meu gosto musical é retrô e chique!" e cenas sobre-coreografadas já deu o que tinha que dar, e atingiu o ápice com Tenenbaums, um filme que eu gosto bastante. Viagem a Darjeeling segue exatamente a mesma cartilha, só que de forma ainda mais abusada, então até mais ou menos meia hora de projeção eu estava detestando o filme. Daí de uma hora para a outra percebi resistir era inútil, e fui assimilado. Anderson é picareta, mas o filme é bacaninha.

Os primeiros dez minutos são ocupados pelo curta Hotel Chevalier, que é famoso por mostrar a bunda da Natalie Portman e ter sido distribuído gratuitamente pelo iTunes (para as regiões que têm iTunes, já que o download do filme é bloqueado para o Brasil...quem quis assistir a esse curta teve que recorrer ao Mininova). Por si só, o curta é uma bomba, mas ele se integra de forma razoavelmente inteligente com o filme propriamente dito (que é apresentado como a Parte 2 da sessão), então é possível dar um desconto.

O filme segue as aventuras de três irmãos americanos ricos, que depois de um tempo sem conversarem entre si são reunidos pelo mais velho em uma viagem espiritual-exótica na Índia, à bordo do trem que dá nome ao filme no título original, The Darjeeling Limited. O elenco é composto pelas figuras de sempre dos filmes de Anderson, Owen Wilson e Jason Schwartzman (agora acompanhados de Adrien Brody), com participações especiais de Bill Murray e Anjelica Huston, e os personagens, como sempre, são inteiramente compostos por cacoetes, que são utilizados como disfarces para trocentos lugares-comuns e clichês, de modo a causar a impressão de que talvez exista alguma profundidade por ali.

Ao contrário de Life Aquatic, entretanto, existe uma historinha que dá uma boa liga à sucessão de excentricidades, diálogos pseudo-engraçadinhos e momentos videoclipe que são a alma do filme, e uma vez que se ignore o diretor querendo chamar a atenção do espectador para si, Darjeeling se transforma em um filme agradável. É que o Wes Anderson exagera tanto na medida ao se colocar na tela a todo e qualquer momento, que a gente esquece que ele está lá e isso acaba salvando o filme. É a mesma coisa que pintar um quadro inteiro de preto ao invés de colocar uns traços grandes aqui e ali: acaba chamando menos a atenção.

Quinta-feira, Novembro 01, 2007

Os Invasores





Assisti essa versão nova de "Invasores de Corpos" no fim de semana e, contrariamente a todas as minhas expectativas, gostei!!!

Achei que não gostaria porque de antemão já tenho uma certa irca da peste contemporânea de remakes em Holywood. Mas, por outro lado, "Invasores de Corpos" é um caso a parte porque vem sendo remakeado há décadas. Para as pessoas novas demais que não sabem do que estou falando (descobri que elas existem :), trata-se de uma historinha onde aliens (geralmente "vegetalóides") caem na Terra e começam a produzir réplicas das pessoas enquanto elas dormem, destruindo os originais. As réplicas são iguaizinhas ao original e têm as mesmas memórias, mas não têm sentimentos; além disso, elas têm consciência de que são aliens e que devem se espalhar e replicar a Humanidade inteira. Assim, no filme original de 56, vagens gigantes caíam do espaço e replicavam as pessoas. No remake de 78 (ainda meu preferido), pimentões espaciais replicam as pessoas (e, como vemos por uma famosa cena trash clássica, também replicam os bichos). Finalmente, no abominável, péssimo remake dos anos 90, acho que feito para a TV, inhames espaciais replicam as pessoas.

Esta versão atual removeu quase todos os elementos de trash/gore/B-movie das anteriores e a infestação alienígena tem uma cara mais plausível. É um mofo microscópico (bom, as imagens lembram mofo pelo menos...) vindo do espaço que contamina as pessoas e faz as mesmas sofrerem uma metamorfose durante o sono: elas vão dormir como uma pessoa normal, mas acordam como seres assustadores completamente desprovidos de sentimentos e emoções.

Na versão de 56, a interpretação clássica é a de que os aliens eram comunistas: transformando todas as pessoas em seres mentalmente idênticos com personalidades pasteurizadas, eles na verdade estavam só tornando realidade as utopias obcecadas com equalitarismo imaginadas pelos comunas. Já nesta versão de 2007, a minha interpretação é a de que genialmente fizeram uma metáfora de uma obsessão mais contemporânea: a das bolinhas. Vou provavelmente irritar os leitores que vão ao psiquiatra e tomam bolinhas, mas a minha impressão é de que no mundo atual, ser uma pessoa com padrões de sentimentos e emoções que eu chamaria de normais virou uma doença: se você tem ataques de ódio, alegria, tristeza, euforia, *eles* dizem que você tem transtorno bipolar; se uma criança acha uma aula chata, *eles* dizem que ela tem transtorno de déficit de atenção; se uma criança gosta de brincar, *eles* dizem que ela é hiperativa. Em qualquer caso, *eles* entucham bolinhas no indivíduo "doente" e ele vira mais uma pessoa caaaaaalma, que nunca se altera com nada - vegetalóide, no fim das contas. Vagens, pimentões, carás, um sacolão humano de legumes andantes e falantes. Citando uma amiga psicanalista minha, tem-se a impressão de que muitos psiquiatras hoje em dia tratam personalidade como se fosse doença.

No filme, *eles*, é claro, são os mofos aliens, mas deliciosamente a protagonista (interpretada pela Nicole Kidman) é... uma psiquiatra! E fica bem claro qual é a metáfora do filme (talvez clara demais até) na hora em que uma das pessoas já "mofada" tenta convencer a protagonista a dormir (e se transformar num d*eles*), lembrando que ela é psiquiatra e usando o fantástico argumento: "Você pode honestamente dizer que os seus métodos são tão diferentes assim dos nossos?"

Fora esse novo enfoque de metáfora, que adorei, essa versão consegue construir tensão muito bem também. As pessoas "assimiladas" pelo mofo continuam tendo aparência humana, mas a atitude e o olhar delas é completamente assustador; acho que na escalação de elenco tiveram o cuidado de selecionar pessoas ligeiramente estranhas que ficam mais estranhas ainda se ficarem com olhar fixo; qualquer que tenha sido o truque, de qualquer forma, funcionou.

No parágrafo seguinte há um spoiler inócuo - afinal, convenhamos, esse filme só pode terminar de dois jeitos: os aliens vencem ou os humanos vencem; e os dois jeitos já foram explorados em outras versões da história. Mas se você tem algum problema terrível com spoilers pare de ler aqui. :)

Embora eu tenha adorado o filme, vi no Rottentomatoes que a recepção da maioria dos críticos a esse filme foi bem ruim. Creio que é por causa do final, que é "bobo" e "feliz" como o do filme de 56. Mas coloquei "bobo" e "feliz" entre aspas por um bom motivo: pela expressão da psiquiatra no final, é fácil ver que ela - e provavelmente boa parte da platéia - fica se questionando se os humanos vencerem e continuarem humanos é realmente um final "feliz"... E acho que essa é uma das grandes sacadas do filme em captar o nosso zeitgeist: vivemos em uma época onde o repúdio à natureza humana é uma moda seguida por muitos...

Domingo, Outubro 14, 2007

Zoo

Documentário sobre o infame Mr. Hands, um homem americano que morreu em 2005 após trepar com um cavalo (ou melhor, após ser trepado por um cavalo). O vídeo do Mr. Hands está por aí na rede para quem quiser assistir...e eu recomendo a experiência, já que ela desafia qualquer descrição. Se eu disser que o vídeo retrata um homem sendo analmente penetrado pelo pênis gigante de um cavalo, descrevo corretamente o conteúdo do curto .mpeg, mas não faço jus a todas as sensações que o clipe provoca. É realmente algo sensacional. No mau sentido.

A história é a seguinte: graças à magia da Internet, vários indivíduos de gostos semelhantes, que nunca teriam oportunidade de se conhecer fora da rede, acabaram se encontrando e montando um clubinho zoófilo em uma fazenda na região de Enumclaw, Washington, que foi literalmente colocada no mapa devido à repercussão que seguiu a morte de Mr. Hands. No clubinho da zoofilia, vários homens de diversos níveis sociais e profissões se reuniam para conversar, tomar umas biritas, e transar com animais. A paz reinava na fazenda, mas como tudo o que é bom termina, certa noite de 2005, um dos membros do grupo, Mr. Hands, decidiu que aguentava o (po)tranco de levar um mega-pênis de cavalo ânus adentro, e acabou sofrendo uma ruptura de cólon. Sangrou até a morte, já que demorou demais para concordar a ser levado a um hospital. O que é compreensível...afinal, a situação é um tanto constrangedora. Além disso, Mr. Hands era um engenheiro respeitado da Boeing, e corria o risco de perder o emprego.


Depois da morte de Mr. Hands, a história caiu nas graças da imprensa e foi um grande sucesso de público e polícia. No final das contas, Washington, que não tinha leis anti-zoofilia, acabou aprovando uma que dá uma pena de até 10 anos de cadeia para quem mantiver relações sexuais com animais não-humanos. A primeira vítima da lei foi um homem que foi pego pela mulher transando com o cão da família. Depois disso tudo, o clubinho dos zoófilos acabou, e o nome de Mr. Hands, Kenneth Pinyan, foi revelado por um radialista, gerando ondas de difamação post-mortem que persistem até o dia de hoje.


A história é tragicômica, e é meio difícil não dar algumas risadas mórbidas quando se pesquisa os eventos. A página de Pinyan na Wiki, por exemplo, diz que "according to anonymous sources on forums where such material was distributed, he was considered very experienced at receiving anal sex from stallions", o que é hilário por si só, e mais engraçado ainda quando se considera o desfecho da história. Mas o documentário Zoo segue outra direção, e é um olhar simpático sobre as preferências sexuais e filosofia de vida de zoófilos mal-compreendidos. Afinal, o que eles buscam não é apenas sexo, é uma conexão "mamífero-para-mamífero" mais profunda. No final das contas, os zóofilos são apenas pessoas que gostam demais de bichos...Mas falando sério, Zoo acerta por não demonizar esses indivíduos, e por tentar entender o que se passa na cabeça de alguém como Mr. Hands, ao invés de apenas tratá-lo como um doente mental ou explorar o lado cômico da tragédia.


Infelizmente, o documentário acaba pecando por ser superficial demais. Há muita coisa boa em Zoo, principalmente a fotografia. O filme é muito bonito, com quadros muito bem compostos, e um jeitão meio Terrence Malick de ser. A trilha sonora é sofrível, uma mistura de Danny Elfman com Thomas Newman em modo American Beauty/Six Feet Under, mas em geral, o filme é muito bem feito em termos técnicos. Só que é baseado em um número muito reduzido de entrevistas, que são colocadas em off enquanto assistimos a representações dramatizadas dos eventos que circundaram da morte de Mr. Hands. Dois dos entrevistados, por falar nisso, nem aparecem no filme (por motivos óbvios). Há um certo lirismo forçado, com várias cenas homem-bicho em câmera lenta, jogos de luz e sombra, atores fazendo pose contemplativa, etc. e tal. E o filme fica nisso. A gente sai do filme entendendo exatamente a mesma coisa que entendia antes de entrar nele: homem que adorava cavalos levou um membro eqüino ânus adentro e morreu de hemorragia. Tudo bem que o filme tenta dar voz aos zoófilos, mas não sai muita coisa de relevante. É claro que eles curtem (e muito!) os bichos, mas isso é meio óbvio. Essa história poderia ter rendido coisa melhor, e talvez fosse mais interessante ter partido não para um documentário, mas para um filme de ficção mesmo.


Não deixa, entretanto, de ser um filme curioso, que vale a pena ver. É curtinho, bem feito e de surpreendente bom gosto, considerando-se o assunto.