V de Vingança
Recentemente, reli V de Vingança, de Alan Moore e David Lloyd, em preparação para o filme. Eu gosto de V, mas sempre achei um tanto superestimado, principalmente em comparação a Watchmen (este sim um trabalho genial). A releitura reforçou minha opinião: V é uma bagunça. Tem alguns excelentes momentos, mas é pretensioso demais, tem sérios problemas de ritmo e é consideravelmente chato. Agora, em comparação ao filme, os quadrinhos são espetacularmente sensacionais. V, o filme, é tão ruim quanto, ou pior, que Liga dos Heróis Extraordinários. Por incrível que pareça, From Hell continua sendo a melhor adaptação de uma obra do Moore, mesmo não tendo muito a ver com o material original.
Moore, por sinal, tem sido muito criticado na mídia, que tem reagido positivamente ao filme. Já de saco cheio das adaptações dos quadrinhos dele resultarem em filmes ruins, Moore não quer ter nada a ver com V. Não quer crédito, não quer dinheiro (foi tudo para o David Lloyd), quer apenas ser deixado
Eu não sou tiete do Moore (que tem uma legião de fãs fanáticos), e como eu disse, nem acho os quadrinhos de V lá grande coisa. Mas ele tem toda razão ao criticar o filme, com base no que ele sabe do projeto. Não é uma questão de fidelidade ao material original...eu não me importaria se o filme tomasse mil liberdades em relação à obra em que se baseia, se fosse minimamente inteligente, e se respeitasse o espírito do original. O problema principal, aqui, é que nada realmente presta, e nada é melhor do que o que havia na HQ. Tudo mudou, radicalmente, para pior. Vou cobrir as diferenças abaixo, só para dar uma idéia de como as modificações foram imbecis.
Tom – A HQ é opressiva, sufocante, e deprimente. O filme é alegre, leve, e cheio de humor, mas no mau sentido. Não tem graça. A idéia de humor do roteiro dos irmãos Wachowski é colocar V, vestindo um avental totalmente gay (o cara que estava atrás de mim gritou “V de viado!”), preparando café da manhã para Evey ao som de Garota de Ipanema. Não tem graça, é estúpido, e acaba com o tom sombrio que não estava presente na HQ de forma gratuita. Não estou dizendo que uma distopia (aliás, estou de saco cheio de distopias, são quase todas muito iguais) tenha que ser down. Apenas digo que, se você for fazer uma adaptação de V, que seja fiel em espírito à obra de origem. E V é uma história bem deprê. Há exceções à regra de fidelidade ao espírito da obra: se você quiser fazer uma paródia (caso de Starship Troopers, por exemplo), tem toda licença para desvirtuar o tom do material de origem. Mas paródia nitidamente não é a intenção de V, o filme.
Visual – O V é idêntico ao V dos quadrinhos, com a máscara de Guy Fawkes, capa, peruca e tudo mais. Param por aqui as semelhanças. A arte de David Lloyd funciona horrores no papel, mas o pessoal que fez o filme olhou para aquilo e falou “Esquece!”. Deu no que deu: V tem toda a cara, jeito, estilo e beleza de Equilibrium. Brega e totalmente genérico. Até a Shadow Gallery, que nos quadrinhos é ao mesmo tempo triste, ameaçadora e, principalmente, amorfa (você nunca tem idéia da dimensão espacial do lugar), transformou-se em uma kitchenette underground com um corredor anexo. Desde o começo do filme, aliás, você fica sabendo que a galeria é subterrânea, algo que é um ponto chave na trama dos quadrinhos, e revelado apenas no final. Além disso, a direção de arte adapta a tecnologia do universo da história para os dias de hoje. Os quadrinhos, feitos na primeira metade dos anos 80, projetaram uma visão bem mais low tech do futuro de 10 anos adiante, do que aquela que efetivamente se verificou nos anos 90. Isso deveria ter sido mantido, porque é charmoso e interessante. Agora, ver Finch usando um monitor Dell para fazer pesquisa dói na alma e é completamente sem sal.
Trama – Por falar na trama, colocaram V de pernas para o ar. Cortaram três sub-tramas essenciais para o jogo de dominós de V (a história de Rosemary Almond, e os dois golpes de Estado orquestrados por Creedy e Helen Heyer). Fica até esquisito o filme aproveitar a cena do V montando os dominós, porque não temos, como nos quadrinhos, a sensação de que ele está cirurgicamente manipulando todo mundo. V explode Old Bailey e o Parlamento, faz Creedy matar Adam Susan (quer dizer, Adam Sutler), distribui umas máscaras e fim. Nos quadrinhos existe todo um trabalho de fundo por parte de V, muito bem elaborado, que resulta na revolução final. Aqui, a ênfase é na vendetta exclusivamente (que ocupa apenas as primeiras 3, de 10, edições de V).
Em relação às explosões, quem leu os quadrinhos também vai notar que V não explode 10 Downing Street. E a realidade é ainda pior: ao contrário de começar explodindo o Parlamento, como nos quadrinhos, V primeiro explode Old Bailey. Os Wachowski, ao escreverem o roteiro, provavelmente acharam anticlimático explodir o Parlamento primeiro, e devem ter pensado que as audiências americanas não iriam saber o que representa 10 Downing Street mesmo. Péssima idéia. Não seria explodir o Parlamento primeiro que tornaria o filme anticlimático. O que tornaria o filme anticlimático seria, justamente, cortar três subtramas que eram essenciais à história, ao mesmo tempo eliminando o ciclo que V montou para si mesmo (ou para a idéia de si mesmo), com Evey o sucedendo, e Evey escolhendo Dominic para sucedê-la. Este era o ponto principal de V, para começo de conversa, e aqui é deixado de lado.
Essas não são as únicas mudanças. Há outras a serem apontadas, mas vou abordá-las ao falar dos personagens, que são o principal motivo das alterações na trama.
Personagens – É aqui que o estrago maior foi feito. Os personagens foram mudados a ponto de ficarem totalmente irreconhecíveis:
* V não é mais um anarco-terrorista performático sinistro. É um terrorista liberal-democrata performático e muito fofo e meigo. Hugo Weaving, que faz a voz do personagem, interpreta ele como se fosse um cara excêntrico, porém muito terno. Não é culpa do Weaving (que, creio eu, fez uma interpretação vocal bem marota, como se percebesse que o filme fosse ficar ruim). A culpa é do roteiro dos Wachowski. No filme, V até pede desculpas a Evey depois de torturá-la, e fala que teve vontade de parar!!! Além disso, ele tem uma relação de amor platônico com Evey, o que tira qualquer ambigüidade em relação à sexualidade do V original, que podia muito bem ser um homo-vingador em busca do poder anárquico do arco-íris. Rola até um beijinho na máscara no final. E o anarquismo está completamente fora de jogada...se depender do V do filme, saindo Adam Sutler entra algum membro do Labour no lugar e as coisas voltam ao status quo ante.
* Evey, coitada, de uma menina frágil, cheia de dúvidas, miserável, prestes a se prostituir, virou uma moça mais velha decidida, forte e corajosa. Tipo uma Princesa Amidala londrina. Ela não procura mais uma figura paterna em V, como nos quadrinhos, mas vê nele, em um primeiro momento, um louco perigoso do qual ela quer distância e, em um segundo momento, um herói romântico, com o qual ela poderia até se casar, se ele não fosse tão cabeça dura (Ah, esse V...). Antes da morte do bispo, ela chega até a traí-lo, cena que foi colocada no filme para atenuar a tortura posteriormente sofrida nas mãos de V. Afinal, ela precisava mesmo de um chega-pra-lá, onde já se viu dedurar nosso querido V!
O fato de que a tortura nos quadrinhos é totalmente gratuita (V já tem Evey em suas mãos, e poderia doutriná-la de outras formas) é bastante significativo, em termos de construção de personagem. O ato é bastante coerente para o V dos quadrinhos, mas o tornaria antipático demais para audiências acostumadas com heróis 100% perfeitos. Covardia dos Wachowski.
* Finch também foi totalmente demolido. Nos quadrinhos, apesar de V tomar algumas medidas moralmente questionáveis e ser completamente insano, ele é do tipo de louco que é visto como a voz da razão e, conseqüentemente, o herói da história. Finch é o anti-herói, o membro do establishment que no fundo talvez seja uma pessoa decente. Ele mata V no final dos quadrinhos, mas antes visita as ruínas no campo de concentração de Larkhill e passa por uma viagem de LSD, na tentativa de compreender a mente de V. A viagem, no filme, é substituída por uma nova subtrama envolvendo um atentado de Creedy contra escolas irlandesas, testando armas biológicas. Esses atentados são atribuídos a terroristas, o que serve de justificativa para a implementação do regime totalitário que entra em poder posteriormente. A revelação destes detalhes é feita por V, fantasiado de outro personagem, numa exposição meio Michael Moore do ocorrido. Ridículo.
* Adam Susan virou Adam Sutler, não sei por qual motivo. Mas tudo bem, porque é outro personagem. Ele já era um ditador meio genérico no V dos quadrinhos, mas aqui ficou totalmente idêntico a qualquer outro ditador-padrão. Pelo menos nos quadrinhos ele tinha aquela relação carnal-romântica com Fate, o mega-computador de vigilância que dominava Londres, mas no filme nem Fate existe. Sutler fala em um monitor gigante para os outros membros da cúpula do partido, e não tem personalidade nenhuma.
* Lewis Prothero virou Bill O’Reilly! Meu Deus...
* Gordon não é mais o bandido que toma Evey como amante. Agora é um apresentador de TV gay, que no momento mais incoerente do filme, resolve fazer uma sátira a Adam Sutler achando que não vai sofrer uma retaliação violenta depois! Hahaha!
* E para terminar, a população de Londres está insatisfeita com o regime! Na HQ, a população é literalmente acordada por V, de um sono apolítico. Não é apenas uma questão de incitar uma revolução, mas de mudar a própria forma como o regime é encarado. No filme, temos cenas de pessoas em bares metendo o pau na gestão de Sutler. Dá licença, viu...
Resumindo, eu não conseguiria imaginar uma adaptação mais babaca para V de Vingança, nem se eu tentasse com todas as minhas forças. Tudo o que poderia ter sido feito de errado, acabou sendo feito.
Moore já se manifestou dizendo que na verdade V foi transformado em uma alegoria liberal meia-boca da atual gestão Bush, por pessoas que não têm coragem de criar uma história que se passe no seu próprio país. Isso é uma grande verdade...boa parte das mudanças foram feitas na tentativa de se adaptar V para a situação política atual dos EUA. E deu muito errado.
Não consigo encontrar uma qualidade sequer em V, o filme. Simplesmente não tem nada que seja remotamente bom nele. Além das mudanças ridículas, é um filme visualmente pobre e bastante chato. O sucesso que tem alcançado me é inexplicável, e me faz temer pelo futuro da humanidade. Sem drama, estou falando sério.




3 comentários:
Bardo, fiquei com medo agora de ver V! Que bom que fui ver o despretensioso e divertido Aeon Flux neste findefa! Mas, como suponho que não vai ter qualquer estréia que preste nesse fim de semana de Sexta Feira Santa, Parte Final agora, devo acabar assistindo o V...
Algumas modificações horríveis que você falou aí talvez nem tenham sido percebidas pelos Irmãos Whatever porque o subconsciente coletivo atual deixa as pessoas meio cegas para certas coisas. Por exemplo, o negócio dos ingleses do filme serem insatisfeitos com o governo. Para as pessoas que sofreram a lavagem cerebral de "democracia é o pior sistema de governo que existe, com exceção de todos os outros" (ou seja, todos os ocidentais), é sempre inconcebível pensar que o povo pode *gostar* de viver em um regime autoritário... Lembra de uma vez que eu expliquei para um americano que o Brasil era uma ditadura até há pouco tempo, e aí o cara meio que me deu os pêsames, disse que "sentia muito" por aquilo. E parece que ficou meio bolado quando eu contei que via de regra a vida era completamente normal para todo mundo ao meu redor e ninguém ficava com aquela coisa de "ah, como eu queria viver em uma democracia"...
Estava à procura de imagens, e descobri esta crónica.
Obrigada, disseste tudo o que eu senti quando estava a ver o filme.
Qem sabe, pode ser que um dia façam justiça a uma obra de Moore. :)
Já tinha visto o filme e acabei de ler a hq. Sem dúvida a original é muito melhor, mais densa e até mais inteligente. Contudo foi escrita nos anos 80, e muito embora o filme tenha adoçado e deturpado a temática para torna-la mais ao gosto dos espectadores americanos, algumas mudanças no enredo eram necessárias para tornar a história plausível. O cenário pós apocalipse nuclear da hq não se encaixa no mundo atual, a guerra bacteriológica, o terrorismo, a questão árabe e o avanço da direita na europa criam um pano de fundo que tornam o enredo muito mais plausível e, por que não, assombrosamente possível.
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