segunda-feira, maio 28, 2007

Maria-sama ga-miteru (Marimite)


Quem, como eu, não é muito familiarizado com o mercado japonês de mangás e animes – apesar de que, é verdade, tenho muito maior contato com ele do que a pessoa média -, fica assustado com o número de gêneros e sub-gêneros existentes, alguns bastante estranhos para o público ocidental. A segmentação é tão bizarra que a impressão, à primeira vista, é a de que se você se esforçar para pensar em um gênero esquisito, vai encontrar um nicho já preenchido por diversas produções que o correspondam. Se levarmos em consideração a pornografia japonesa, as coisas vão até mais longe, com filmes sobre garotas devoradoras de baratas.

Como a Internet é uma coisa maravilhosa, e a como a comunidade de fãs de animação e quadrinhos japoneses é bastante prestativa e numerosa, quem quiser conferir diretamente coisas que jamais seriam distribuídas normalmente por aqui pode se aventurar e acompanhar dezenas de animes e mangás traduzidos por fansubbers e scanlators. É claro que, conforme bem coloca a Lei de Sturgeon, “90% de tudo é merda”, e há tanto lixo entre as séries traduzidas que não é difícil ficar perdido, ou desistir de ler e assistir a material japonês. Mas os 10% que sobram valem muito a pena, e é só prestar atenção nos fóruns que a gente acha coisas interessantíssimas. Caso de Maria-sama ga miteru.


Maria-sama ga miteru, ou Marimite, para facilitar, é uma série presente em quase todos os veículos da cultura popular japonesa, com exceção do cinema. É, originariamente, uma série de light novels – o equivalente japonês de livros infanto-juvenis –, que depois virou anime e, finalmente, foi adaptada em quadrinhos. As duas primeiras temporadas do anime foram exibidas na TV japonesa, e a terceira está sendo lançada em OVAs (Original Video Animation). Mas vamos falar de nichos: Marimite é uma série shojo, ou seja, voltada ao público feminino jovem, com histórias românticas e melodramáticas. Também é considerada uma série yuri/shojo-ai, que é um rótulo para histórias envolvendo lesbianismo (explícito/pornográfico no caso de yuri, e implícito/romântico no caso de shojo ai). No caso das séries shojo-ai, temos histórias românticas feitas para um público-alvo composto por meninas lésbicas/simpatizantes, bem como marmanjos barbados cuja grande fantasia é ser uma menina lésbica (da espécie que tem olhos grandes e cabelos cor-de-rosa). Eu sei que alguns fãs de animação e quadrinhos japoneses vão chiar com essa definição, mas ela corresponde 100% à realidade. Não posso fazer nada a respeito, e ninguém precisa ter vergonha de assistir, principalmente quando o material é bem escrito.

Marimite se passa em um colégio católico para moças que é uma verdadeira utopia lésbica. O título significa algo como A Virgem Maria Vela por Ti/Nós ou A Virgem Maria Está Nos Olhando/Vigiando (Maria-sama é como os japoneses chamam a Virgem). Homossexualismo em um colégico católico para moças ou moços é longe de ser algo espantoso, já que é mais ou menos como pulga em cachorro de rua. Uma coisa que assusta em Marimite, entretanto, decorre de diferenças culturais: não há nenhuma ironia, sequer um quê de graça no fato de colégio católico ser um point lésbico dos mais quentes. É tudo a coisa mais natural do mundo, como se os japoneses não tivessem muita idéia do posicionamento da Igreja Católica a respeito do homossexualismo.

E agora eu me antecipo em relação a outras reclamações que os fãs da série podem fazer: “Mas não há lésbicas em Marimite!”. E é aí que você se engana, meu jovem/minha jovem. Em uma escala de 1 a 10 Xuxas, Marimite recebe nota 11. O fato de que há apenas uma personagem que seja obviamente uma lésbica, e que o relacionamento entre as personagens, como alguns dizem, seja retratado como algo maior do que uma amizade e menor do que um caso amoroso, não afastam o quão lésbica essa série é. E nem diferenças culturais: aliás, as diferenças culturais reforçam a interpretação do colégio como utopia lésbica. Não sei até que ponto confiar em antropologia e sociologia de boteco (leia-se, de fóruns de Internet), mas há discussões interessantes sobre homossexualismo no Japão, e como coisas que nós interpretaríamos como evidentemente homossexuais sejam consideradas distintamente por lá. Mas o mais importante é que o próprio tom da série é uma coisa meio “liberação/catarse para lésbicas reprimidas”, com o lesbianismo não sendo posto como tabu, mas simplesmente como algo normal e que acontece e é aceito naturalmente, muito ao contrário do que ocorre em 99% das produções do absurdamente chato cinema gay americano/europeu, nas quais fulano/fulana fica decidindo se vai sair ou não do armário, ou preocupado quanto a sua aceitação na sociedade e fazendo discurso.


Já li em vários lugares que Marimite não tem história e que é uma produção mais centrada nas personagens, mas esse é um grande absurdo. Há, sem dúvida alguma, uma preocupação em se fazer personagens bem delineadas, mas isso não significa que não haja história. Há história, mas a narrativa é episódica e (primorosamente) concisa, meio difusa e esparsa. De certa maneira, há excesso de história, mas a narrativa é tão sutil e delicada que dá a impressão contrária. E a ênfase é em uma pluralidade de micro-dramas, ao invés de apenas um drama maior. Há um drama maior, relativo ao relacionamento entre a protagonista Yumi (cujo ponto de vista é o mais utilizado durante a série), e sua pretendente/semi-namorada Sachiko, mas o que mais se vê é um amontado de mini-histórias que se resolvem rapidamente, às vezes com dois episódios e um punhado de cenas. Somadas, essas histórias compõem um painel que retrata 4 gerações de estudantes da escola onde se passa a série, a Shiritsu Ririan Jogakuen (Escola Católica Lillian para Moças).

A primeira coisa que o desenho empurra goela do espectador abaixo é o sistema hierárquico e cheio de rituais que domina as relações estudantis. Cada menina do segundo ou terceiro ano escolhe uma menina do primeiro para ser sua “irmãzinha” (sério, e ainda tem gente que defende que não há lesbianismo em Marimite), e guiá-la/orientá-la (sei). Mais ou menos uma coisa meio efebo/erasta. Para concretizar o laço, a menina mais velha passa seu rosário à menina mais nova. É um casamento entre colegiais, em outras palavras, com tudo o que isso implica (uma menina passar mais tempo com outra que não seja sua "irmã" pode significar infidelidade, por exemplo). Trata-se do Sistema Soeur (há uma fixação neste desenho, por sinal, com a língua francesa, com todos os episódios tendo seus títulos exibidos, além de japonês, também em francês). A menina mais velha no Sistema Sœur é chamada de grande sœur, e a menina mais nova de petite sœur.

Além do Sistema Sœur, há também a hierarquia do conselho estudantil, o Yamayurikai, composta por três famílias que cobrem três gerações de estudantes (uma para cada ano): Chinensis, Foetida e Gigantea. As meninas mais velhas de cada família recebem o título de "rosa", de modo que sempre temos uma Rosa Chinensis, uma Rosa Foetida e uma Rosa Gigantea. O nível logo abaixo é o dos botões de rosa: Rosa Chinensis en boutoun, Rosa Foetida en bouton e Rosa Gigantea en bouton. Finalmente, no nível mais baixo, há uma petite sœur para cada um dos botões de rosa. Quando uma rosa se forma, o botão assume seu lugar, e a petite sœur se transforma em botão. O ciclo se repete indefinidamente.


A história começa com Yumi, uma menina tímida e com problemas de autoconfiança, sendo (quase que) acidentalmente escolhida como a petite sœur de uma das Yamayurikai, Sachiko (então Rosa Chinensis en boutoun). E daí o desenho engata uma história de peixe fora d'água, com Yumi se familiarizando com as tradições da escola e as outras Yamayurikai, em uma série de micro-dramas que às vezes soam bastante exagerados mas, curiosamente, nunca artificiais, como por exemplo a dificuldade que Yumi tem para telefonar para Sachiko por temer que não a própria, mas um parente desconhecido, venha a atender o telefone e ela fique sem saber como cumprimentá-lo corretamente. A cena demora uns cinco minutos, e a julgar pelo monólogo interno de Yumi a situação dela é tão dramática quanto a de uma pessoa que acabou de descobrir que tem câncer. Por incrível que pareça, não fica ridículo, e você sente, de certo modo, a dor da personagem.


Pela descrição que eu fiz, aliás, a série pode soar meio babaca, mas longe disso. É muito bem escrita e trabalhada, com personagens memoráveis e lacunas estrategicamente colocadas, que dão bastante material para especulação. O tom, paradoxalmente, é de uma leveza opressiva, extremamente difícil de se conseguir intencionalmente, e mesmo acidentalmente (caso de Marimite, na minha opinião). Por mais que o desenho seja ameno e agradável, com várias cenas de humor, a sucessão de micro-dramas (e alguns dramas realmente grandes) acaba tendo um efeito meio sufocante, principalmente quando você se senta para ver uma temporada inteira (e é fácil pular de um episódio para outro, perdendo a noção do tempo). No final das contas, apesar do desenho se conformar a um nicho específico do mercado japonês e respeitar suas convenções, fica a impressão de que se está vendo algo bastante acima da média. No início, Marimite não causa muita comoção e parece um desenho esquecível...mas o efeito cumulativo é razoavelmente devastador. Ultimamente eu tenho sentido cada vez mais dificuldade para encontrar algo que me emocione no cinema, e Marimite me marcou profundamente, por maiores que sejam as distâncias culturais e, particularmente, de nicho, em relação ao que eu costumo ver habitualmente.

Resumindo, é um desenho muito bonito, que vale a pena assistir. Quem quiser acompanhar a série e os mangás está bem servido por fansubbers e scanlators:

Anime (português)

Anime - Primeira temporada (inglês)

Anime - Segunda temporada (Haru) (inglês)

Anime - Terceira temporada (inglês)

Mangá (inglês)

8 comentários:

Lúcio disse...

Puxa, para você ter escrito um mega-ultra-post assim, fico com a impressão de que deve ser muito bom mesmo! Mas acho que vou ter uma assustadoramente grande resistência para tomar coragem para assistir isso. Provavelmente porque, como você já deve ter suspeitado, não sou parte do público-alvo masculino "cuja grande fantasia é ser uma menina lésbica (da espécie que tem olhos grandes e cabelos cor-de-rosa)". (Amei essa definição! :)

filmelog disse...

Hahaha, nem eu, mas funciona como drama. O tamanho do post é para compensar a ausência. Mas por outro lado, eu não conseguiria escrever mais que três parágrafos sobre Piratas do Caribe 3, então...

renmero disse...

Fiquei curioso. Acompanho animação japonesa com bastante reservas há um tempo e desde que encaixei os animes numa categoria "normal" assisti um punhado de coisas muito boas.

Vou colocar na fila aqui o Marimite. Vai que eu gosto também.

Anônimo disse...

Muito bom! No primeiro link pra baixar o anime tbm tem os light novels!

_Luu disse...

Lindo demais, Jesus! ou melhor, Maria-sama XD

Não tenho como fazer um comentário à altura desse post ou à altura de Marimite.

Parabéns (:

Michelli disse...

Caramba! Se melhorar estraga..
definiu exatamente as principais emoçoes q sentimos no anime..
explicou com clareza a historia e ainda me fez ver sua cara qndo tava no cinema sem emoçao.. aahuahua
Parabens!!!

Luciano disse...

Ótimo comentário. Baixei as temporadas e logo no 01X01 ja é contagiante, da vontade de assitir o segundo, depois o terceiro...........

Resumindo Maria-Sama Ga Miteru é anime de ótima mas ótima qualidade!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

leonardo disse...

Primeiramente eu NUNCA postei nesse blog. Eu vim parar aqui por estar procurando um episódio de Maria Sama em rmbv, o que e é extremamente difícil e esgotado, resolvi ler sua síntese sobre a história do anime.
Bem, eu já vi quase todos os episódios e logo aviso que o anime pode ser frustrante se você esperar que as personagens fiquem finalmente juntas. Talvez, por ser homem, eu queira chegar logo nos finalmentes...
o que você disse sobre assistir uma temporada de uma vez é verdade, eu tentei fazer isso com a primeira e quase tive um ataque do coração. Mas não desisti, pois como também você disse Maria Sama prende você a história com muita facilidade.
Porém a parte sexual eu acho que não foi bem explicada, e eu não quero parecer mais um tarado defensor do lesbianismo como algo natural.
Eu comecei querendo ver sexo, e quase enlouqueci porque não rolou nem mesmo um beijo, e pra um abraço foram uns três episódios... Maria Sama é assim mesmo.
Porém percebi que o relacionamento entre as meninas é mais uma admiração do que amor. É algo como uma fantasia e admiração de uma pessoa mais velha e inteligente por uma mais nova, tipo o que ocorre entre irmãos . ou deve ocorrer, sei lá, sou filho único . ou ainda a admiração a um professor ou pai ou mãe, por parte de um jovem inexperiente. Com o passar do tempo, Yumi conhece melhor sua ídolo e desfaz aquela ilusão inicial que tinha, até mesmo aprendendo a compreender algumas atitudes dela. Isso é algo que eu nunca vi em outro anime, a evolução de um relacionamento de amizade, pelo menos com tanto realismo. A história ainda não acabou, mas eu não espero que as garotas fiquem juntas como namoradas, pois este final não iria condizer com a história apresentada até agora, mais relacionada ao amor platônico, aquele preso a ilusão e inalcansável.
Por fim, digo que o termo yuri não se aplica a este anime, talvez o shoujo ai, não manjo muito dessa coisa japonesa, mas enfim o anime mostra a história de uma pessoa com problemas de confiança e entrosamento que tem a chance de conhecer a pessoa que admira de longe . amor platônico . e descobre que ela não é aquilo que ela imaginava. A partir daí ela luta para se aproximar, descobrindo e aprendendo a lidar com os problemas da garota, tornando se sua melhor amiga. E a parte de amor não sai e nem deve sair disso, uma admiração que se torna verdadeira amizade, mesmo que no começo Yumi confunda isso com o outro tipo de amor.
OBRIGADO...