Segunda-feira, Agosto 06, 2007

Death Note

Death Note é um anime em 37 episódios (de 20 minutos cada), baseado, como manda o figurino, em um mangá de mesmo nome, editado no Brasil pela JBC (está no segundo volume, de doze, neste mês de agosto de 2007), escrito por Tsugumi Ohba e desenhado por Takeshi Obata. Também já rendeu dois longas que eu ainda não vi (o Hideo Nakata, segundo a Wiki, vai dirigir um spinoff com base na série), e que foram grandes sucessos de bilheteria no Japão. Descrever a série é fácil, já que é uma mistura de algumas histórias bastante conhecidas, mas a mistura rendeu algo razoavelmente original. É a velha história do pacto com o Diabo, dentro de uma trama policial, com o trivial jogo de gato e rato entre um brilhante criminoso e um brilhante detetive. O interessante é que é uma série totalmente imprevisível, e a história tem vários momentos geniais, ainda que trapaceie um pouco no final das contas, a partir da omissão de algumas informações cruciais. Mas é difícilimo adivinhar para onde tudo está caminhando, e há pelo menos duas reviravoltas enormes, que acabam diminuindo um pouco o brilho da série por virar por demais as coisas de pernas para o ar.

A história é a de um adolescente, cujo nome nada absurdamente ridículo é Light Yagami (ou "Raito", na pronúncia em Engrish), que certo dia encontra um caderno que literalmente caiu do céu, a tal da Death Note. Abrindo o caderno, de páginas em branco, encontra uma série de regras sobre seu funcionamento. As mais importantes são três:

1. O humano cujo nome for escrito no caderno morrerá em 40 segundos. É necessário que o rosto do humano seja visualizado ao se escrever o nome. Deste modo nenhum homônimo morre;

2. É possível especificar a causa da morte, desde que isso seja feito em 40 segundos. Caso contrário a vitima morre de ataque cardíaco;

3. Uma vez que se especifique a causa da morte, é possível preencher os detalhes do evento, o que deve ser feito dentro de um período 6 minutos e 40 segundos.

Há várias outras regras, e boa parte da trama circula em torno delas. Depois de achar o caderno, Light descobre que a Death Note, por mais incrível que pareça, funciona exatamente como descrito. Os cadernos, na verdade, são propriedade de "deuses da morte", os Shinigami (direto da mitologia japonesa), que habitam um mundo só deles e têm pleno controle sobre a vida dos seres humanos. A Death Note chegou até o mundo dos humanos porque seu proprietário, o shinigami Ryuuk, estava se sentindo entediado e decidiu chacoalhar um pouco as coisas (o mundo dos shinigami é um marasmo só). Como Light também estava entediado com a própria vida, o casamento dá certo. Quase um casamento mesmo, porque uma vez perdendo a Death Note para um ser humano, o shinigami fica a ele vinculado, em regime de semi-escravidão, até que o humano renuncie ao caderno ou morra. Light, além de ganhar um caderno que é a arma mais poderosa do universo, também ganha um serviçal demoníaco, e munido com esses poderes sobrenaturais, decide eliminar da terra todos os criminosos e se instalar (literalmente) como um deus entre os mortais, em uma utopia pessoal em que ele, Light, é uma força justa e benevolente. Light é um sociopata extremamente perigoso, e um dos motivos pelos quais Death Note é interessante é justamente o fato de que o protagonista é uma pessoa totalmente detestável, com a qual somos forçados passar a maior parte do tempo (às vezes até torcendo para que tudo dê certo para ele).

Como antagonista, temos o detetive L (em Engrish, "Eru"), um grande gênio que tem passe livre para comandar as polícias de qualquer país do mundo. L é de certa forma parecido com Light, mas sem a sociopatia extremada deste, e de longe o melhor personagem de Death Note. Me lembrou um pouco a época em que eu era criança e ficava impressionado com os poderes de dedução de Sherlock Holmes. L é basicamente um Sherlock Holmes que tem diante de si crimes praticamente impossíveis de serem solucionados, com o complicador de desconhecer a existência da Death Note e suas regras. Mas ele vai chegando lá, e acompanhar a trajetória de L é uma das coisas mais bacanas de Death Note. L é um personagem simplesmente fascinante.

O desenho é longe, entretanto, de ser perfeito. Há alguns problemas sérios, como a total ausência de uma personagem feminina que preste, e um certo tom de misoginia que paira no fundo. Não é questão de ser politicamente correto, apenas que a principal personagem feminina, Misa-Misa, é de longe a coisa mais irritante do desenho, e está lá principalmente para deleite sexual de parte do público (adolescentes do sexo masculino), em uma série que é bem escrita e interessante o suficiente para atingir um público muito mais amplo, para o qual Misa-Misa, a mulher objeto burra e submissa, a gothic lolita que é um primor de vacuidade e futilidade, é repelente e não atraente. Além de Misa-Misa, as personagens femininas ou desaparecem depois de uns 2 episódios, ou são mais ou menos do mesmo naipe (burras e, principalmente, submissas). Os vários coadjuvantes masculinos, por outro lado, são todos muito bem escritos (sem falar, na maioria dos casos, inteligentes). Mas tudo bem, essa cretinice é perdoável diante dos bons momentos de Death Note.

Outro problema são as reviravoltas que eu mencionei acima. Há duas grandes reviravoltas, que marcam pontos de transição entre os três arcos da história. O primeiro arco, que é centralizado na descoberta da Death Note e suas regras por Light Yagami, e na sua perseguição pelo brilhante L, é muito mais interessante do que o segundo arco, cujos detalhes eu não vou revelar. E o segundo arco, a seu turno, é menos interessante mas muito melhor executado do que o terceiro arco, que é um tanto bagunçado. Talvez fosse melhor se tudo tivesse terminado com o primeiro arco, mas no final das contas, é preciso admitir que Death Note dá suas voltas e chega a lugares que são longe de ser óbvios se apenas considerarmos sua premissa básica. E há bastante mérito nisso.

Pacotão de episódios:

Inglês

Português

3 comentários:

Lúcio disse...

Ohhhhh! Outra postagem enorme sua que não consegui parar de ler, porque a historinha desse animê me pareceu ótima mesmo! Vou encadear depois do meu atual "enchimento de entre-safra de séries", o Jericho.

Douglas Lisboa disse...

Ri MUITO do blog.
Estude um pouco...

filmelog disse...

Pô, Douglas, mandar estudar e nem falar o quê é baixaria! Baixaria!